segunda-feira, 28 de julho de 2008

Uma breve crítica ao bacharelismo

"Foram os primeiros legisladores que deram à carta esse prestígio extraterrestre.
Naturalmente, teriam escrito nos seus códigos: tudo o que há no mundo é propriedade do doutor, e se de alguma coisa os homens gozam, devem-no à generosidade do doutor. Era uma outra casta, para a qual eu entraria, e desde que penetrasse nela, seria de osso, sangue e carne diferente dos outros – tudo isso de uma qualidade transcendente, fora das leis gerais do Universo e acima das fatalidades da vida comum." (BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha, pp 9-10).

Estava hoje enquanto esperava numa fila lendo o livro “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” do Lima Barreto (autor que gosto muito, não obstante ter lido apenas “O Triste Fim de Policarpo Quaresma” dentre as suas obras), e eis que passo pela passagem que relatei no começo desta postagem. Isto ocorreu quando o jovem Isaías, estava tratando de sua viagem ao Rio de Janeiro com o Coronel de sua cidadezinha, e pensando em como seria bom ser doutor.
Pensei...Refleti...
Esse era um entre tantos trechos de livros escritos no começo do século passado que ainda se mostram atuais, apesar do passar dos anos. É incrível como esse fenômeno, doravante chamaremos de bacharelismo, este fenômeno que nada mais do que a hiper-valorização do diploma universitário. Ele é notório com a explosão de faculdades particulares, onde é possível ter uma formação de ensino superior em pouco tempo e sem dar muitos passos do portão de casa. Daí, refleti mais uma vez e pensei: “Por que isto acontece? Qual o condão que o diploma universitário possui que faz, na prática, o seu portador ser melhor que aquele que não o possui?”. Esta resposta é algo difícil de se obter.
Esta valorização do certificado de conclusão da universidade faz com que funções que antes eram executadas com perfeição por aqueles que não tiveram esta formação acadêmica, sejam consideradas assaz complexas, a ponto de só serem capacitados a executá-la aqueles com alguma formação acadêmica. É o que se chama hoje de qualificação.
Eu seria estúpido se pregasse o abandono da Universidade e o retorno à ignorância, contudo, prego que se exija “bacharelados” naquelas funções que se demonstrem com a complexidade concernente a isto, ex: Advogados, Médicos, Engenheiros, etc, estas funções possuem a necessidade sine qua non de formações acadêmicas. Contudo, há o panorama de formação de graduações esdrúxulas como Secretariado Executivo ou de Gestão em RH, que são instituídas com o argumento de “atender as novas necessidades do mercado”, contudo qual é a real necessidade de uma secretária ser graduada nisto, pois que fosse graduada em Direito se trabalhasse em um escritório de advocacia, ou em Contabilidade se trabalhasse em um escritório deste tipo; o conhecimento universitário, neste caso, pode ser útil para a execução do trabalho. A minha proposta é que haja a exigência de escolaridade quando ela for útil, na prática, para a execução do serviço; onde haja a Universidade tenha efetivamente contribuído para a otimização do trabalho. Fazer a graduação só para ser graduado, eu não vejo como válido, vejo como algo esdrúxulo e supérfluo. E isto faz com que se reduza, cada vez mais, o espaço para aqueles que conquistaram conhecimentos na prática, e que tiveram como Universidade a escola da vida, o que será da senhora de 50 anos que sempre foi secretária e não se formou nisto, no caso desta perder o emprego? Por que a ausência de um simples diploma a tiraria de um emprego, quando ela já sabe tudo que precisa saber para executar a função com perfeição?

Saudações.

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